HISTÓRIAS DE UM BURRO APOSENTADO (Realidade, Junho de 1975)
Eu me chamo Baguassu e desculpem alguma imprecisão; memória de burro não é lá essas coisas. E depois , vejam a minha idade: 53 anos. É quase um milagre. Burro raramente passa dos 35. Mas burro com direitos trabalhistas é outra coisa. E lá na Antarctica sempre fomos tratados como devem ser os operários: como gente. O doutor Gioso, nosso veterinário, diz mais bonito: “Como criaturas feitas para a glorificação de Deus e utilidade da sua mais bela obra, o homem”. E é o homem que pratica o que diz.
Olha, aí vem ele. O doutor Gioso deve andar pelos 60 anos, tem as mãos manchadas e cheias de verrugas de tanto tratar animal. Há 35 anos não faz outra coisa. Hoje vem ver meu companheiro Diamante, que anda ruim da garganta. Ou é inflamação no céu da boca ? Já tive muito, dói. É de alguma coisa dura que a gente, na fome, mastiga com o capim. Aí o doutor corta com o ferrinho, alivia. É o que está fazendo agora no Diamante.
Pronto, Diamante é de novo um burro feliz. Se vê pelos olhos. Burro, no geral, tem essa cara de cavalo. Mas fala pelos olhos. O doutor Gioso sabe, ele sabe tudo. Costuma dizer que burro – burro e criança – nunca disfarçam o que estão sentindo e por isso são fáceis de tratar.
Veja como o Diamante sai aos pinotes , contente. É o burro mais bonito aqui na comunidade. Baio, cheio de listas pretas pelos tornozelos. Relógio e Meada são de um castanho dourado. Fadista, Pombinha e Bamba são mais para o branco, com ligeiras pintas cor-de-mel. Cobra, sim, é toda dourada.
É a neurótica do grupo, adora dar coice em todo mundo. Coitada, agente perdoa. Entrou mocinha na companhia, com 16 anos, em 1939. Hoje está com 52 anos. Usava na ferradura um “saltinho”.
Um texto em homenagem ao ENEM (Empreendimento Negligente Espalhando Mutretas)
Grande Coiçe mano BAGUASSU!!!
( Achei que não deveria fazer a tradução do coiçe do mano Baguassu )

